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Cristo Rei

ESCOLA PRÁTICA DE ARTILHARIA

Vendas Novas, 3 Maio 74 

RELATÓRIO DAS ACÇÕES DESENVOLVIDAS PELA ESCOLA PRÁTICA DE ARTILHARIA INTEGRADAS NO MOVIMENTO DAS F. A.

1. ANTECEDENTES

Desde a primeira hora ligada ao M.F.A. pelos seus Oficiais do Q.P. de Arma dos escalões capitão e subalternos, foi ao longo do tempo realizada uma acção prévia incluindo: – Diversos contactos com outros camaradas ligados ao Movimento e com a Comissão Coordenadora, através das reuniões convocadas pela referida comissão a partir da realizada nos arredores de Évora (9 Set. 74) – Realização de sucessivas reuniões no âmbito da Unidade, com o objectivo de mentalização e identificação de todos com as finalidades e propósitos do Movimento – Decidida por unanimidade dos Oficiais acima referidos a participação total e activa, nas acções de força que se tornasse necessário desencadear, deu-se Início a uma fase de estudo e planeamento, compreendendo os seguintes pontos principais:
– Detenção do Cmdt e 2.° Cmdt. – Recrutamento de Oficiais do Q.C. e de Sargentos. Organização e preparação (técnico-táctica e logística) de duas Batarias de Artilharia (uma de 8,8 em e outra de 10,5 em) e duma Companhia Motorizada tipo atiradores, destinadas a actuação exterior. – Defesa imediata do Quartel. – Controle da Vila de VENDAS NOVAS, incluindo eliminação da força local de G.N.R.
– Recebida em mão a ordem de Opero em D-1, procedeu-se ao seu estudo, tendo-se tomado as disposições finais para início da acção.

2. DESENROLAR DA ACÇÃO

a. Dia 24
– Uma vez que o Cmdt e 2.° Cmdt eram elementos armados e decididos a resistir, tendo inclusivamente estabelecido previamente um sistema de Alerta através do Posto local da G.N.R., foi provocada uma reunião com aqueles Oficiais (cujo pretexto foi assentar pormenores relativos à visita do ex-ministro do Exército, General Andrade e Silva, projectada para 25 de Abril) com a finalidade de facilitar a sua detenção. Reunidos assim no Gabinete do Comandante aguardou-se a confirmação pela rádio do início das actividades; imediatamente irrompe pelo citado gabinete uma equipa constituída pelos Tenentes de Art. Andrade e Silva, António Pedro e Sales Grade, que juntamente com os outros Oficiais presentes (Capitães Mira Monteiro e Patrícia, e Tenente de Art. Ruaz e Nave) prenderam o Cor. Belo de Carvalho e o Ten. Cor. João Nascimento tendo-lhe sido na altura relatada toda a situação pelo Sr. Cap. Patrício, os quais foram conduzidos para um quarto que ficou vigiado por dois Oficiais armados. – Seguidamente, com as Centrais Rádio e telefónica já ocupadas e com as entradas do Quartel sob controle, foi exposta a situação e indicados os objectivos e finalidades do Movimento, tendo para o efeito:
– O Capitão Santos Silva chegado clandestinamente meia hora antes da B.A 3, onde se encontrava em diligência reunido os Oficias do Q.C. que aderiram na sua totalidade. (Este Oficial. na qualidade de mais antigo, havia assumido o Comando desta E.P.A.) – O Capitão Mira Monteiro teve idêntica acção junto dos Sargentos e Furriéis, verificando-se apenas a total adesão dos últimos. Assim foram detidos todos os Sargentos presentes. Também o Ten. Andrade e Silva falou aos primeiros cabos Mil. da Unidade que também aderiram unanimemente.
– Cerca das 24 horas foi organizada uma formatura geral, com a presença dos quadros decididos a actuar à qual foram distribuídas funções:
COMANDO
– Cmdt: Cap. Santos Silva; Adjuntos: Tenentes Martins C. Ruaz, Sales Grade e Sousa Brandão.
BTR ART. 8,8 em (a 6 b.f.)
– Cmdt: Cap. Oliveira Patrício; Subalternos: Tenentes Marques Nave, Almas Imperial, Pereira de Sousa e Aspirantes Mil. Tolentino e Gonçalves.
BTR ART 10,5 em (a 4 b.f.)
– Cmdt: Cap. Duarte Mendes; Subalternos: Alteres Gaspar Madeira e Formeiro Monteiro e Asp. Mil. Guerra.
COMP. ART MOTORIZADA (4 Pelotões)
– Cmdt: Cap. Mira Monteiro; Subalternos: Tenentes Andrade da Silva, António Pedro, Ribeiro Baptista, Amílcar Rodrigues e Asp. Mil. Carvalho e Salgueiro.
Reserva (3 Pelotões)
– Cmdt: Cap. Canatário Serafim; Subalternos: Tenente. Jesus Duarta e Alf. Mil. Medeiros.
b. Dia 25
(1) Armadas, equipadas e municiadas, as forças iniciaram o movimento à hora prevista na O. Oper. (3 horas), tendo a C. Art e a BTR 8,8 constituído uma coluna (de 16 viaturas militares e 1 civil transportando uma equipa de exploração) a qual alcançou e ocupou a posição de Cristo Rei, em ALMADA, pelas 7 horas. Simultaneamente com a saída destas forças, a BTR de 10,5 ocupou posições a cavaleiro das estradas de MONTEMOR-O-NOVO e LAVRE, com as missões de interdição destes eixos e de segurança próxima da Unidade.
(2) Actuação da BTR ART 8,8
– Ocupou posições de crista, permitindo-lhe bater em tiro directo, qualquer coluna que atravessasse a Ponte, ou qualquer navio no estuário do Tejo; como objectivos em Lisboa, nomeadamente o Monsanto e o Terreiro do Paço. – Cerca das 9.30 horas apontaram sobre uma fragata em movimento, conforme ordem recebida do P.C. mantendo 2 bocas de fogo apontadas até as fragatas saírem do Tejo e as restantes 4 bocas de fogo apontadas sobre Monsanto. – Não tendo sido necessária a realização de fogos, esta Unidade exerceu no entanto Importante acção de presença e de esclarecimento da numerosa população de ALMADA, tendo sempre constituído elemento capaz de, em quaisquer condições, Influenciar o desencadear da acção, pela colocação dos seus tiros nos objectivos que se revelassem.
(3) Actuação da PART MOTORIZADA
– Montou a segurança à BTR 8,8 em e estabeleceu o controle do acesso à PONTE SALAZAR
– Cerca das 9.00 horas montou um dispositivo com a finalidade de interceptar uma viatura
civil da P.M. na qual seguia Major de Cavo Manuel Cruz Azevedo, conforme ordem emanada do PC – Cerca das 11.30 horas ocupou posições para interceptar um DEST FZ que se deslocava para Lisboa, caso este não fizesse o sinal de código (agitação das boinas) emanado do PC; o referido DEST seguiu ao seu destino, tendo algum tempo. Depois passado pela posição em sentido inverso. Mais tarde pelas 14.30 horas) este mesmo DEST contactou com as NF, conforme havia sido comunicado pelo PC, tendo ali permanecido sem qualquer acção. – Pelas 15.15 horas, a CART recebeu a missão de se deslocar à CR do GOV. MIL. LX (TRAFARIA) a fim de libertar os Oficiais pertencentes ao Movimento; esta missão foi integralmente cumprida pela libertação de 11 Oficiais ali detidos. Esta força fez-se reforçar dum seco art. guarnecendo um obus 8,8 em que, depois de cercado o forte entrou em posição frente ao portão principal e a escassos metros deste. Ordenada a rendição. o portão foi aberto prontamente. Durante a acção foram detidos na área 24 elementos da G.N.R., os quais acompanharam as N.T. à posição inicial. Os Oficiais libertados, escoltados por forças da CART seguiram para LISBOA. – Pelas 16 horas foi dada ordem para cercar e ocupar o Regimento de Lanceiros 2. Montado o dispositivo, o Cmdt da força foi contactado por elementos do R.C. 7, que informaram estar com o Movimento. Seguidamente os portões do R.L. 2 entreabriram-se dando passagem a 2 Asp. Of. que manifestaram desejo de contactar com o Cmdt da força, a quem declararam que praças, graduados do QC. e eles próprios desejavam tomar parte na acção, o que não haviam ainda feito por oposição dos seus Comandos. – Armado e com 2 Furriéis Mil. como guarda costas, o Cmdt da força entrou no aquartelamento em causa, a fim de contactar o Coronel Cmdt e saber das sua posição. Deparou com enorme confusão no bar e dependências anexas, onde se encontrava grande número de Oficiais tentando os subalternos persuadir o seu Cmdt a aderir ao Movimento. Aquele Senhor, tentando ganhar tempo, declarou ao Cmdt da força sitiante que esperava as «necessárias» ordens daqueles que nessa altura estavam já senhores da situação. Deparou-se então a seguinte situação: .
– Oficiais subalternos desejavam tomar parte activa na acção;
– Capitães diziam aderir mas declararam “Que não saíam do Quartel”;
– Cmdt e Major Cruz Azevedo manifestaram-se contra o Movimento;
– Restantes Oficiais superiores mal definidos;
– O Cmdt da força teve conhecimento de que a situação de quase total indisciplina que se verificava na Unidade, se deveria principalmente ao facto de na manhã deste dia terem estado no Quartel várias personalidades de destaque, entre as quais o Almirante Henrique Tenreiro, que foi deixado sair em liberdade.
– Foi tentado um contacto com o PC por RACAL-TR 28, que não foi obtida; – entretanto chegou o Major Monge com indicações relativas ao procedimento a adoptar; – A força sitiante, que já se encontrava dentro do quartel, recebeu mais tarde do novo Cmdt da Unidade indicação para ali pernoitar, o que foi comunicado à posição de Cristo-Rei.

c. Dia 26
– Pela 1.30 horas as forças da CART reuniram-se à BTR na posição, onde aguardaram ordens.

d. Dia 27
– Pelas 12 horas, as forças desta E.P.A. receberam ordem de regresso ao Quartel, tendo alcançado VENDAS NOVAS pelas 18.30 horas.
3. DIVERSOS
– Em 26 às 18 horas foi levantada a segurança próxima, pela recolha da BTR ART.10,5.
– Em 25 às 16 horas aterrou na parada da Unidade um ELI ALOUETTE pilotado pelo Capitão Godinho, que Informou encontrarem-se forças estacionadas em MONTEMOR-O-NOVO e no desvio da estrada parar ARAIOLOS (que mais tarde se soube pertencerem as primeiras ao R.1. 13 e as últimas ao .R.1.16).
– Em 26 às 22.30 horas, apresentou-se nesta E.P.A. o Major Art. Rui Folhadela de M. Rebelo, que assumiu o Comando Int. da Unidade.

Assinaturas

MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS
ESCOLA PRATICA DE ARTILHARIA

Informação relativa aos:
– CORONEL DE ART. MÁRIO BELO DE CARVALHO
– TEN-CORONEL DE. ART. JOAO MANUEL GRAÇA PEREIRA DO NASCIMENTO

1. O primeiro oficial, que desempenhava as funções de Comandante desta Unidade, muito embora conhecedor da existência do Movimento, alheou-se sempre dele, mostrando-se incrédulo e disposto a fazer o que estivesse ao seu alcance para gorar os nossos intentos. Havia sido colocado aqui por ser amigo pessoal e elemento de confiança do ex-Secretário de Estado do Exército, coronel Viana de Lemos, pois que não era possuidor de quaisquer qualidades especiais que o creditassem como Comandante da maior e mais importante unidade de Artilharia do País. Tal facto está segundo Julgamos, na base da sua promoção a coronel, em que havia sido preterido em consequência de punição aplicada na Guiné pelo então Comandante-Chefe, General Spínola, quando ali comandou um BART situada em Catió. Em fins de Março promoveu a transferência para o RAL 4 do Capitão de Art. Luís Manuel Branco Domingues, oficial mais antigo desta E.P.A., membro do M.F.A., com o que julgava «sanear» a Unidade.
Na base desta atitude está o facto daquele oficial, em nome de todos os camaradas do O.P. da Arma, e numa reunião presidida pelo Comandante, ter manifestado solidariedade com os oficiais que não embarcaram para o CTI Açores. Durante esta tomada de, posição
foi-lhe pedido que de tal facto fosse dado conhecimento imediato à RME, o que segundo oficiais colocados naquele O.P., não foi feito.
Mais tarde pretendeu ainda afastar o Tenente Sousa. por saber que constituía elemento de ligação não havendo tomado, que se saiba qualquer atitude contra outro elemento de ligação (Capitão Patrício) por este ter sido entretanto mobilizado para o CTI Guiné. Pelos factos apontados. não pôde deixar de ser detido, o que foi conseguido sem resistência. De resto. trata-se de uma personalidade fraca e um tanto abúlica. Pelo exposto, considera-se elemento que não interessa ao serviço activo do Exército.
2. O segundo oficial. 2.° Comandante, é o que se poderá chamar um «legalista». Rígido, desconfiado. teimoso. e cegamente determinado. era elemento considerado perigoso, tendo mesmo depois de detido. afirmado que, se não tivesse sido colhido de surpresa, teria reagido violentamente, para o que se havia armado de pistola-metralhadora.
Tinha tomado disposições tendentes a fazer abortar o Movimento. Encontrava-se perfeitamente integrado nas ideias do Comandante. Elemento com espírito negativo. pensa-se que poderá eventualmente exercer represálias. Foi detido sem resistência. por não lhe ter sido dada oportunidade. Porque não exerceu qualquer acção relevante nesta Escola não se lhe reconhecem qualidades especiais e ainda pelos factos apontados, é nossa opinião não interessar ao serviço activo do Exército (1).
3. Julga-se ainda de interesse registar uma apreciação aos seguintes oficiais:
a. Coronel Art. José Luís de Azevedo Pereira Machado. Anterior Comandante desta Escola. revelou-se sempre elemento altamente negativo. Trata-se de um oficial extremamente ligado ao anterior regime.

b. Ten-Coronel Art. José António Cardoso de Almeida. Anterior 2.° Comandante, é elemento fortemente reaccionário. Sempre se mostrou contrário aos objectivos do Movimento das F.A.

c. Major de Art. Comandos Júlio Faria Ribeiro de Oliveira. Antigo Comandante de Grupo. é elemento pró-General Kaúlza de Arriaga .. Revelou-se contrário ao Movimento, pelo qual manifestou no entanto certo Interesse em Dezembro último. por julgar ligado ao referido sr. General.
Ouartel em Vendas Novas, 3 de Maio de 1974.
a) Assinaturas pitão de Art.

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